Do Tratado sobre o Espírito Santo,
de S. Basílio Magno, bispo e doutor da Igreja
Quando o Apóstolo dá graças a Deus por Jesus Cristo (Rm1,8) e ainda diz ter recebido por ele a graça e a missão de pregar às nações para que obedeçam à fé, ou também que teve acesso por Cristo a essa graça em que fomos estabelecidos e da qual nos gloriamos, revela-nos a bondade para conosco daquele que ora nos transmite da parte do Pai a graça dos benefícios e ora nos introduz por seu intermédio junto do Pai. Ao declarar: “por quem recebemos a graça e a missão de pregar” (Rm 1,5), Paulo revela a origem da distribuição dos bens; e ao afirmar: “por quem tivemos acesso” (Rm 5,2), mostra que nossa elevação e nossa familiaridade com Deus se realizaram por Cristo. Por acaso, confessar que a graça em nós atua por ele seria diminuir a glória de Cristo? Ou não seria mais exato afirmar que uma enumeração de boas obras constituiria tema conveniente de louvor? Além disso, verificamos não nos transmitir a Escritura um nome apenas para o Senhor, nem somente nomes que revelam a divindade e a sua grandeza, mas ainda apresenta propriedades características da natureza. Com efeito, ela sabe proferir o nome que está acima de todo nome, o do Filho, verdadeiro Filho, Deus Unigênito, Poder de Deus, Sabedoria, Verbo. Ademais, devido às múltiplas formas da graça em relação a nós, graça concedida aos suplicantes por bondade, conforme a sua multiforme sabedoria (cf. Ef 3,10), a Escritura designa o Senhor por muitas outas denominações. Ora ela o denomina pastor, ora rei; ora ainda médico, esposo, caminho, porta, fonte, pão, machado, pedra. Estes nomes, porém, não designam a natureza, mas, como já disse, a multíplice energia que ele transmite, por misericórdia para com a sua própria obra, àqueles que a pedem, em suas particulares necessidades. Quanto àqueles, porém, que sob sua autoridade se refugiam, dispostos a partilhar o que têm, e são resignados, Cristo os chama de ovelhas e confessa servir-lhes de pastor, pois elas escutam sua voz, sem prestar atenção em doutrinas estranhas. Declara: “Minhas ovelhas escutam minha voz” (Jo 10,27). Ele é rei dos que já alcançaram as culminâncias, e precisam de chefe legítimo. Igualmente, é porta, porque conduz às práticas de zelo, conforme os seus retos mandamentos e ainda apascenta em segurança os que se refugiam no bem do conhecimento [gnosis], por meio da fé que nele depositam. Pois, “quem entrar por mim, entrará e sairá e encontrará pastagem” (Jo 10,9). Chama-se, contudo, “pedra” (1Cor 10,4), por ser para fiéis abrigo forte, inabalável, mais sólido que qualquer fortificação. Nesses casos, quando se chama Cristo de porta ou caminho, usar por quem é preferível e mais expressivo. Como Deus e Filho, possui com o Pai, junto com ele, a mesma glória, porque “ao nome de Jesus, se dobrará todo joelho dos seres celestes, terrestres e dos que vivem sob a terra, e, para glória de Deus Pai, toda língua confessará que Jesus Cristo é o Senhor” (Fl 2,10-11). Por esta razão, usam-se ambas as partículas; uma, para exprimir sua dignidade peculiar. E a outra, para expressar sua graça em nosso favor.

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