Por S. Tomás de Aquino
Se, pois, a felicidade última do homem não consiste nas coisas exteriores ditas bens da fortuna, nem nos bens corpóreos, nem nos bens da parte sensitiva da alma, nem na parte intelectiva referente às virtudes morais, nem nas virtudes intelectuais ativas, a saber, na prudência e na arte; de tudo isso resulta que a felicidade última do homem está na contemplação da verdade. Aliás, essa é a única atividade própria do homem, e dela de nenhum modo outro animal participa. Esta atividade não se ordena a coisa alguma como fim, porque a contemplação da verdade é procurada por si mesma. Por esta operação o homem se une por semelhança ao seres superiores, porque, entre as atividades humanas, ela é a única que se encontra em Deus e nas substâncias separadas. Por ela, também o homem se aproxima dos entes superiores, conhecendo-os de algum modo. Ademais, o homem é mais que suficiente em si mesmo para realizar esta atividade, porque, para tal, muito pouco precisa das coisas exteriores. Finalmente, é visível que as demais operações humanas para ela se dirigem como para o fim. Com efeito, para a perfeita contemplação é necessária a incolumidade corpórea, e para esta se ordenam todos os utensílios necessários à vida. Também requer a contemplação a tranquilidade sem as perturbações passionais, à qual se chega pelas virtudes morais e pela prudência, bem como a tranquilidade que afasta as perturbações exteriores, para a qual se ordena todo o regime da vida social.
E assim, vendo-se bem a realidade, verifica-se que todas as atividades humanas servem à contemplação da verdade
Porém, é impossível que a felicidade última do homem consista na contemplação que tem por objeto a inteligência dos princípios. Esta, por ser universal ao extremo, é imperfeitíssima, e contém em potência o conhecimento das coisas. E, ainda, é o princípio e não o fim do trabalho intelectual, que nos vem da própria natureza e não do trabalho intelectual que busca a verdade. Nem é também a contemplação que tem por objeto a ciência das coisas inferiores, porque a felicidade deve estar em uma operação do intelecto que se refira aos inteligíveis mais elevados. Resulta, pois, que a felicidade última do homem consiste na contemplação da sabedoria, cujo objeto são as coisas divinas.
Depreende-se daí também que, considerando-se por indução o que acima foi provado por dedução, a última felicidade do homem não consiste senão na contemplação de Deus.
Summa contra Gentiles, III, 37.