domingo, 8 de novembro de 2015

Dificuldades do ingresso na vida intelectual


Por Gilton Lima

A cultura da ignorância no Brasil dificulta o caminho para aqueles que desejam algo a mais, os quais sempre terão que buscar formação por sua própria conta. E não poderia ser de forma diferente. Passando por sofrimentos psicológicos e inibições sociais, o normal na terra dos anormais labuta de forma vital pela formação de uma mente sã e capacitada para a vida madura. As grandes mentes são forjadas por essa dor, pela coragem de não se submeterem ao que vem de fora e perseverar no que acreditam. Nesse contexto, perseguições totalitárias sempre lapidaram mentes brilhantes, pois esse sofrimento de preservação da inteligência faz com que o ser humano se aproxime de Deus e da realidade.
O acima dito é tão verdadeiro que o contrário acontece da mesma forma. As mentes mais depravadas são aquelas que sofrem menos, que tudo têm desde pequenas e crescem vislumbrando prazeres temporais. São mentes oprimidas pelo mundo, mentes que se recusam a crescer e se impor perante ele. Para toda crise de consciência, o remédio é sempre mais consciência. Este é o caminho para se tornar alguém verdadeiro, tendo a confissão como técnica para seu desenvolvimento, ficando aparte de suas misérias e com o espirito de melhora, buscando arrepender-se profundamente. 
É preferível a guerra interna, o conhecimento de si, antes de ingressar em qualquer estudo. Isso só pode ser feito através de um breve isolamento do mundo, o questionamento de quem sou e por que faço o que faço. Esse estado é quase “Descartiano”: uma destruição total do Eu construído de forma passiva, absorvendo o que vem do mundo, principalmente dos que não tiveram base familiar e ficam mais sujeitos a essa passividade.
Assim, o homem se eleva na vida de estudos como quem sobe uma pirâmide, galgando os degraus da personalidade, conhecendo a si mesmo com um olhar mais aprofundado nas questões humanas e consequentemente fortalecendo suas virtudes. É inevitável esse crescimento em conjunto e não pode haver fruto em se tornar mais douto decrescendo nas virtudes. Isso seria uma literal idiotice: tal homem só poderá ser alguém que recusa ampliar sua consciência, alguém preso no próprio mundo. Não há como conhecer o verdadeiro e deixar de segui-lo: seria ignorar a própria consciência e abortar toda sua potencialidade. Adentrar nesse estilo de vida seria então uma conversão gradual e total, sacrifício da vida como é vivida e tendo todo o tempo dedicado a essa tarefa, sem nem um minuto perdido, sacrificando finais de semana e amigos.
Personalizar o próprio Eu nada mais é do que destruir por completo todas as crenças e ideias "próprias", reformular tudo. A verdadeira personalização é sempre se perguntar: mas de onde foi que tirei essa ideia? E o jovem mentecapto irá perceber que quase nenhuma veio dele mesmo, que ele não é senão uma ovelha correndo na direção que o pastor deseja e como ovelha, não questiona absolutamente o pastor, só vai para onde ele manda. Esse é o estado reinante no nosso país e o jovem que quiser ingressar na vida de estudos terá que estar no mundo e jamais ser dele; deverá se desapropriar das garras do mundano, do coletivo e fazer aquilo que a verdade manda. Não como dono da verdade, mas como seu mais fiel servo. Como dizia o Padre Sertillanges: "Só se é realmente um intelectual se se pode dizer: para mim o viver é a verdade".

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