segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O preceito da correção fraterna


Por S. Tomás de Aquino

A correção fraterna subordina-se ao preceito. A razão disso é que somos obrigados pelo preceito a amar ao próximo. O amor, contudo, inclui em si que o homem deseje o bem para aquele que ama. Amar alguém, pois, é isto: desejar-lhe o bem, como diz o Filósofo [Aristóteles], no livro II da Metafísica. E porque o estar isento do mal tem a razão do bem, como se diz no livro V da Ética, disso resulta que essa razão pertence à do amor, de modo que também desejamos que as coisas más não se encontrem naqueles que amamos. A vontade, contudo, não é eficaz, nem verdadeira, se não se comprovar com a ação. Por este motivo, também, pertence à razão do amor que levemos as coisas boas aos amigos e que afastemos deles as más, como se diz no livro IX da Ética. E em 1Jo 3,18, diz- se: Não amemos com palavras nem com a língua, mas com as ações e em verdade.
Tríplice, porém, é o bem dos homens, e tríplice o mal que a ele se opõe. Há, pois, um bem do homem que consiste nas coisas exteriores, que é o mínimo bem. E, por esse bem, o homem é obrigado a socorrer o próximo pela distribuição da esmola corporal. Diz-se, pois, em 1Jo 3,17: Se alguém, possuindo os bens deste mundo, vê o seu irmão na necessidade e lhe fecha o coração, como permanecerá nele o amor de Deus? E, do mesmo modo, o homem é obrigado a levar auxílio ao próximo contra as perdas dos bens temporais. Donde se recomenda em Dt 22,1: Se vês o boi ou a ovelha do teu irmão extraviados, não fiques indiferente a eles. Deves fazê-los voltar ao teu irmão.
Um segundo bem do homem é o bem do corpo, pelo qual deve também o homem auxiliar seu próximo e levar-lhe auxílio, contra um mal contrário. Diz-se, pois, em Pr 24, 11: Liberta os que são levados à morte, salva os que são arrastados ao suplício.
O terceiro bem, porém, é o bem da virtude, que consiste no bem da alma, ao qual se contrapõe o mal do pecado. Para conseguir esse bem, contudo, ou para evitar o mal, tanto mais é obrigado o homem pela caridade a levar o auxílio ao próximo, quanto mais pertence à razão o porquê de alguém ser amado pela caridade. Donde, também, dizer o Filósofo, no livro IX da Ética, que tanto mais deve o homem levar o auxílio ao amigo, mais para evitar os pecados do que para evitar a perda de dinheiro, quanto mais próxima está a virtude da amizade. E, por isso, o homem é obrigado pelo preceito do 
amor a auxiliar o próximo a seguir a virtude, dando-lhe conselho e ajuda para agir bem, como se diz em Is 35,3-4: Fortalecei as mãos abatidas, revigorai os joelhos cambaleantes. Dizei aos corações conturbados: ''Sede fortes, não temais". E, por causa disso, pelo preceito do amor, o homem é obrigado a afastar do pecado o irmão que está no pecado, corrigindo-o, como se diz em 1Ts 5,14: Admoestai os indisciplinados; reconfortai os pusilânimes. Foi desse modo que o Senhor ordenou, em Mt 18,15: Se o teu irmão pecar, vai corrigi-lo a sós.
Assim, pois, a correção fraterna subordina-se ao preceito. Mas deve-se notar que as ações virtuosas são prescritas pelos preceitos afirmativos; as ações viciosas, contudo, são proibidas pelos preceitos negativos. Aquilo que é, pois, segundo sua natureza, vicioso e pecaminoso, é de qualquer modo mau, 
porque se aproxima de defeitos singulares, como diz Dionísio, no capítulo IV Sobre os nomes divinos. Por isso, aquilo que é proibido pelo preceito negativo não deve ser feito de modo algum por ninguém. Mas, pelo preceito afirmativo, prescreve-se a ação de virtude, para cuja retidão muitas circunstâncias concorrem, porque o bem surge de uma única e completa causa, como diz Dionísio, no capítulo IV Sobre os nomes divinos. 
Donde aquilo que se subordina ao preceito afirmativo não deve ser observado todo o tempo e de qualquer modo, mas desde que conservadas determinadas condições de pessoas, locais, causas e ocasiões, assim como a honra aos pais não deve ser exibida em qualquer tempo ou lugar, ou de qualquer modo, mas desde que observadas determinadas condições. Do mesmo modo, a correção fraterna subordina-se ao preceito segundo determinadas condições, segundo a natureza da ação virtuosa.
Entretanto, não é possível determinar essas circunstâncias pela palavra e, por isso, seu julgamento consiste em particularidades; e isso diz respeito à prudência, aquela virtude adquirida com a experiência e com o tempo, aquela que se derrama sobre nós, como se diz em 1Jo 2,27: A unção que recebeste dele permanece em vós.

A Caridade, a Correção Fraterna e a Esperança, Questão 3 - Artigo 1- Se a correção fraterna está no preceito

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