Do Tratado sobre o Espírito Santo,
de S. Basílio Magno (Séc. V d.C.)
Entre as verdades conservadas e anunciadas na Igreja, umas nós as recebemos por escrito e outras nos foram transmitidas nos mistérios, pela Tradição apostólica. Ambas as formas são igualmente válidas relativamente à piedade. Ninguém que tiver, pouco que seja, experiência das instituições eclesiásticas, há de contradizer.
De fato, se tentássemos rejeitar os costumes não escritos, como desprovidos de maior valor, prejudicaríamos imperceptivelmente o evangelho, em questões essenciais. Antes, transformaríamos o anúncio em palavras ocas. Por exemplo (para relembrar o que vem primeiro e é o mais comum), quem ensinou por escrito a assinalar com o sinal-da-cruz aqueles que esperam em nosso Senhor Jesus Cristo? Que passagem da Escritura nos instruiu a nos voltarmos para o Oriente durante a oração? Qual dos santos nos deixou por escrito as palavras da “epiclese” no momento da consagração do pão na Eucaristia e do cálice da bênção? Não nos bastam as palavras referidas pelo Apóstolo e pelo evangelho; antes e depois proferimos outras, recebidas do magistério oral, por terem grande importância para o mistério. Benzemos também a água batismal e o óleo do crisma e além disso o próprio batizado. Conformamo-nos a que escrito? Não é por causa da tradição secreta e mística? E então? Qual a palavra escrita que prescreveu a própria unção com o crisma? Donde se origina a tríplice imersão? De que trecho da Escritura provêm as cerimônias complementares do batismo, como a renúncia a Satanás e a seus anjos? Não se originam desta instrução particular e secreta, que nossos Pais guardaram num silêncio tranquilo e isento de inutilidades, cônscios de que assim salvaguardavam o caráter sagrado dos mistérios? Com efeito, como seria razoável divulgar por escrito aquilo que de forma alguma é permitido aos não-iniciados contemplar? Qual o fim que tinha em mira o grande Moisés quando determinou que nem todas as partes do templo seriam acessíveis a todos? Estabeleceu que ficassem fora do recinto sagrado os profanos, permitindo apenas aos mais puros o acesso aos primeiros átrios, enquanto só os levitas foram considerados dignos do serviço divino. Para os sacrifícios, porém, os holocaustos, e o restante desempenho do culto foram designados os sacerdotes. Não admitiu no santuário senão um só, escolhido dentre eles; além disso, não em qualquer tempo, mas apenas num só dia do ano, em hora determinada por ele, a fim de contemplar o Santo dos Santos com assombro, por ser evento estranho e insólito. Em sua sabedoria, Moises estava ciente de que facilmente se menospreza o que é habitual e de pronto acesso, enquanto uma raridade conservada à parte, desperta como que naturalmente uma ardorosa procura. Foi igualmente desta forma que os Apóstolos e os Padres, que desde os primórdios dispuseram tudo o que se refere às Igrejas, sob silêncio e segredo conservaram também o caráter sagrado dos mistérios. Pois já não é mistério absolutamente o que chega aos ouvidos do vulgo. É o seguinte o motivo da tradição não escrita: impedir que, por descuido, o conhecimento da doutra seja menosprezado por muitos, devido à rotina. De fato, uma coisa é a doutrina, e outra o anúncio. Cala-se a primeira, enquanto o anúncio é proclamado. Constitui igualmente uma forma de silêncio a obscuridade empregada nas Escrituras, que torna mais difícil à mente apreende a doutrina para proveito dos leitores. Eis por que, apesar de todos nós olharmos para o Oriente ao rezarmos, poucos sabem que estamos procurando nossa antiga pátria, o paraíso que Deus plantou no Éden, na direção do Oriente (Gn 2,8).
De fato, se tentássemos rejeitar os costumes não escritos, como desprovidos de maior valor, prejudicaríamos imperceptivelmente o evangelho, em questões essenciais. Antes, transformaríamos o anúncio em palavras ocas. Por exemplo (para relembrar o que vem primeiro e é o mais comum), quem ensinou por escrito a assinalar com o sinal-da-cruz aqueles que esperam em nosso Senhor Jesus Cristo? Que passagem da Escritura nos instruiu a nos voltarmos para o Oriente durante a oração? Qual dos santos nos deixou por escrito as palavras da “epiclese” no momento da consagração do pão na Eucaristia e do cálice da bênção? Não nos bastam as palavras referidas pelo Apóstolo e pelo evangelho; antes e depois proferimos outras, recebidas do magistério oral, por terem grande importância para o mistério. Benzemos também a água batismal e o óleo do crisma e além disso o próprio batizado. Conformamo-nos a que escrito? Não é por causa da tradição secreta e mística? E então? Qual a palavra escrita que prescreveu a própria unção com o crisma? Donde se origina a tríplice imersão? De que trecho da Escritura provêm as cerimônias complementares do batismo, como a renúncia a Satanás e a seus anjos? Não se originam desta instrução particular e secreta, que nossos Pais guardaram num silêncio tranquilo e isento de inutilidades, cônscios de que assim salvaguardavam o caráter sagrado dos mistérios? Com efeito, como seria razoável divulgar por escrito aquilo que de forma alguma é permitido aos não-iniciados contemplar? Qual o fim que tinha em mira o grande Moisés quando determinou que nem todas as partes do templo seriam acessíveis a todos? Estabeleceu que ficassem fora do recinto sagrado os profanos, permitindo apenas aos mais puros o acesso aos primeiros átrios, enquanto só os levitas foram considerados dignos do serviço divino. Para os sacrifícios, porém, os holocaustos, e o restante desempenho do culto foram designados os sacerdotes. Não admitiu no santuário senão um só, escolhido dentre eles; além disso, não em qualquer tempo, mas apenas num só dia do ano, em hora determinada por ele, a fim de contemplar o Santo dos Santos com assombro, por ser evento estranho e insólito. Em sua sabedoria, Moises estava ciente de que facilmente se menospreza o que é habitual e de pronto acesso, enquanto uma raridade conservada à parte, desperta como que naturalmente uma ardorosa procura. Foi igualmente desta forma que os Apóstolos e os Padres, que desde os primórdios dispuseram tudo o que se refere às Igrejas, sob silêncio e segredo conservaram também o caráter sagrado dos mistérios. Pois já não é mistério absolutamente o que chega aos ouvidos do vulgo. É o seguinte o motivo da tradição não escrita: impedir que, por descuido, o conhecimento da doutra seja menosprezado por muitos, devido à rotina. De fato, uma coisa é a doutrina, e outra o anúncio. Cala-se a primeira, enquanto o anúncio é proclamado. Constitui igualmente uma forma de silêncio a obscuridade empregada nas Escrituras, que torna mais difícil à mente apreende a doutrina para proveito dos leitores. Eis por que, apesar de todos nós olharmos para o Oriente ao rezarmos, poucos sabem que estamos procurando nossa antiga pátria, o paraíso que Deus plantou no Éden, na direção do Oriente (Gn 2,8).

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